Drummond & o Disco Voador
Carlos Drummond de Andrade, famoso por ter sido o único brasileiro vivo que nunca vira um disco voador, na passagem do Disco Voador de Peter Coffin, estava de costas e não viu.
Carlos Drummond de Andrade, famoso por ter sido o único brasileiro vivo que nunca vira um disco voador, na passagem do Disco Voador de Peter Coffin, estava de costas e não viu.
Muito me intriga esse repúdio à metafísica. Vocês a odeiam pela mesma razão que os faz rejeitar o Diabo: ela não existe, mas não é propriamente pelos motivos por vocês apresentados.
Algumas pessoas me perguntam o que é, afinal, Água Santa. Outras ainda me perguntam onde fica. A maioria não pergunta nada, mas Água Santa é uma praia. É uma praia em que não se nada, em que há uma colina cujas árvores são, como não poderiam deixar de ser, sábias e redondamente enganadas. Lá batem ondas que ora em muito se parecem aos maleáveis solos do Coltrane, ora a alguma passagem do Livro dos Espíritos. É o Vasco da Gama na segunda divisão do campeonato brasileiro de futebol, é um naufrágio lá longe, é submarino e lágrima de Borges. É um artigo da Wikipédia, mas não é uma ilha, nem é Macondo e tampouco fala espanhol. É esta frase em russo: “логия, однако, подвергла историзации и аллегорию, показав, что она также принадлежит определенному историческому контексту”. É muitas coisas e não está em lugar algum.
Espero ter sanado alguma possível dúvida.
Abraços cordiais,
Victor Heringer
Ainda não estou satisfeito. Tenho que dar um jeito no problema das formigas no apartamento. Uma passa aqui perto e é esmagada (meu pé descalço) — não sinto seu corpo mínimo colapsar sob o peso. Há muitas e elas também traçam linhas estranhas no chão esbranquiçado. Recentemente descobri que se eu passar o dedo no invisível trajeto que elas seguem, algo da composição química do caminho se distorce: o feromônio de repente altera sua geometria (de cis para trans, ou algo parecido) e todas se perdem naquele exato ponto que entrou em contato com a pele do meu dedo indicador, como se eu, espécie de deus das formigas daquela espécie, alterasse todo o destino daquele dia. O pote de açúcar em cima da mesa do café da manhã (de anteontem) agora é o inalcançável e eu, o postulante de problemas metafísicos às formigas.
Excerto do primeiro capítulo do segundo romance que já nasceu post-mortem. Basicamente, é o seguinte: pessoas reencarnando em artistas plásticos e enlouquecendo + argentinas deformadas + velhos diplomatas babando + Rio de Janeiro apodrecendo.
Não há outra forma, para um cafeinômano, de cruzar as mais de mil páginas de Infinite Jest senão com o auxílio da química. Os tipos mais sensatos, aguerridos ou saudáveis (os que tratam o corpo como um templo, praticam trekking etc. etc.) muito bem podem usufruir da maestria wallaceana sem o supracitado composto, degustando cada pun intended e cada nuança da trama com maior facilidade do que um auto-proclamado cafeinômano. Para nós, porém, a travessia é mais árdua, justamente porque, sem a substância percorrendo nossas veias e artérias, caímos debilmente na Armadilha DFW — esquecemos que deveríamos estar prestando atenção (cf. a tal infinite jest). O ponto aqui é altamente discutível, mas, para saltar por cima de alguns obstáculos teóricos, assumamos que prestar atenção é realmente imprescindível à leitura.
A cafeína é um alcalóide que age, basicamente, como inibidor de adenosina, substância responsável pela moderação da atividade cerebral. Quando tomada regularmente, a cafeína aumenta o número de receptores de adenosina, causando tolerância à substância. A escalada desse processo é conhecida como decadência ao vício. Pessoalmente, já senti os terrores da abstinência de cafeína, mas ainda creio poder reverter o processo gradualmente (mas também assim pensam os viciados em cocaína e/ou drogas mais pesadas). O leitor mais atento poderia muito bem argumentar (e com propriedade de químico) que, tomado pelo vício, qualquer um exigiria doses cavalares de café/mate/coca-cola para resistir a uma leitura mais extensa do que, digamos, cinqüenta páginas. No entanto, é aí que o Efeito DFW (talvez uma variante da Armadilha DFW) entra em jogo.
A leitura de Infinite Jest (no original inglês; os efeitos causados pelas traduções existentes/possíveis ainda não foram estudados) trabalha no sentido inverso ao da cafeína. Poderoso desestimulante, o tijolo-volume injeta na corrente sanguínea do cafeinômano quantidades absurdas de inibidores da trimetilxantina, causando o anteriormente citado Efeito DFW. Os sintomas podem variar, mas são basicamente os seguintes: torpor, irritabilidade, tédio profundo. O leitor médio (saúde, trekking, templo, etc.) tomará a enumeração desses sintomas como algo pernicioso, digno de desencorajar qualquer interessado na obra do autor americano, porém, estará longe da verdade. Outro leitor médio apontará os momentos de extrema graciosidade do texto como contra-argumento (cf. nota 304; pg. 137, etc.) e não estará errado. O real DFW Effect, contudo, abarca toda a narrativa e todo julgamento que se possa fazer dela (inclusive este). E, ao que tudo indica, Wallace tinha plena consciência do que estava fazendo; seus textos teóricos e entrevistas (cf. “E Unibus Pluram(…)”) denunciam um intelectual preocupado com o tédio, com a sublimação do tédio, do torpor e da irritabilidade dos seres humanos. “The Pale King”, um mamutídeo tratado ficcional sobre o fastio (seu último romance, inacabado), também nos diria isso.
Um breve parêntese: independentemente do vício ou não em quaisquer substâncias danosas ao organismo, hordas de escritores e lesser-writers, deste ou de outros países, após o suicídio de Wallace, se puseram a escrever sobre sua vida & obra, muitas vezes incorrendo em dois (a meu ver) grandes erros. 1) um quase-fanatismo pela figura de DFW como um dos gênios maiores da raça (o que não dista da verdade, mas cautela!) e (2), o pior deles, uma espécie de cópia desenfreada do estilo, salpicando textos com wallaceanas notas de rodapé, informações detalhadíssimas sobre os mais diversos assuntos (cf. cafeína/ 1,3,7-trimetilxantina/ C8H10N4O2?), infinitas digressões intrafraseais proustianas (??) etc. etc.
O Efeito DFW, portanto, causa uma espécie de curto-circuito nas interações que a cafeína engatilha, pois o viciado pouco sente, ao enfrentar o texto, os efeitos do estimulante. Esse processo, como veremos mais adiante, pode ser prejudicial à saúde mental do cafeinômano. Viciado ou não, comedor de ópio ou não, teórico literário ou advogado trabalhista, leitor nenhum sai incólume de Infinite Jest; o prólogo da edição americana traz uma das visões possíveis para a obra (e cita Sufjan Stevens, o que, para mim, já está ótimo), e eu trago outra, horrivelmente (por um lado) otimista (por outro).
Escrever sobre David Foster Wallace foi quase um imperativo, e admito que fiquei tentado a incorrer nas mesmas práticas explicitadas no breve parêntese anterior. Era o que eu teria feito, realmente, se o incidente não tivesse ocorrido. Teria partido para a calistenia lingüística disfarçando tietagem, teria utilizado a já famosa resenha que diz que David Foster Wallace parece conseguir fazer o que quiser… mas não, por causa do incidente.
Tenho um sistema de ingestão de cafeína, no qual certos horários e regras são respeitados para não comprometer o sono, que, para mim, é literalmente sagrado[1]. Pouparei os detalhes, que são dedutíveis, mas o caso é que, engrenado, às duas da manhã, na leitura (se bem me lembro, lá pelas pp. 160), resolvi transgredir minhas próprias regulamentações de viciado. Apesar de não ter sono, a minúcia do texto me fez desejar estar mais alerta do que o normal (para duas da manhã, no caso). Fiz café. Não funcionou — eu já estava sob o Efeito DFW; não pressenti o erro que havia cometido.
Algumas horas mais tarde, com os músculos ardendo de cansaço, me dispus a, finalmente, dormir. Livre das amarras do Efeito DFW, a cafeína pôde se alastrar e, apesar de ter caído no sono, meu cérebro permaneceu alerta. Eis que o incidente se deu. Num dado momento da manhã, sonhei que estava sonhando, ou melhor, percebi que estava sonhando e pude analisar o sonho como sonho, assim como as angústias do sonho (coisas que se misturam: a angústia do sonho e a análise angustiante da angústia do sonho). Sonhei que vertia para o inglês as palavras de Sun Tzu, e que meu objetivo final era produzir algum livreto de auto-ajuda cujo título seria “The Art of War for Tennis Players”. Sonhei que não sabia alguns termos técnicos do esporte, e que, logo, deveria inventar alguns, como se deu na seguinte passagem (que aqui é transcrita mais ou menos como pude analisar durante o sono):
When facing three different opponents on the same court & clock, the true Tennis Player must always regard one of them at a time. In the event of one match against three opponents, the true Tennis Player must not, by any circumstances, try and play the three at the same time, for this may cause an absurd amount of droomsed movements in the true Tennis Player’s mind.
O fato mais perturbador, no entanto, permanece sendo o estado de consciência mantido durante o bizarro sonho, dentro do qual eu pude não só rir da coisa toda, como questionar o porquê de eu estar sonhando um sonho dentro de um sonho. As implicações metafísicas/religiosas/cultistas do incidente são óbvias, e a necessidade de (talvez) procurar um terapeuta, também. No entanto, é o elemento deflagrador do incidente que nos importa no momento.
Não é incomum que leitores sonhem com o que estão lendo, mas esse fato não invalida a teoria de que não são muitos os autores que conseguem engatilhar uma autoconsciência tão memorável, cujo ápice extremo (e desagradável) se deu (para mim) com os fatos ocorridos na tal manhã narrada. Abstenho-me, portanto, de mais elogios, por medo de incorrer no tão fácil fanatismo e, por ora, também das infusões que contenham cafeína. Mas recomendo a leitura, a moderação na coca-cola matinal e o perdão por uma ou duas falhas de coesão causadas pela momentânea abstinência.
[1] Nota explicativa necessária, talvez sem nenhuma conexão com as costumeiras notas de DFW: “Os médiuns espíritas (…) que se entregam à oratória, (…) não recebem as intuições no momento em que discursam (…) O que frequentemente acontece é que, já possuidor do necessário cabedal, (…) na véspera desse trabalho, ou poucas horas antes, o médium será arrebatado em espírito por seu Guia espiritual, durante o sono (…).” (PEREIRA, A.. 2004.)
"Os textos de Pedro Bial na hora do anúncio do eliminado da semana, do "Big Brother Brasil 9", serão usados nas aulas de capacitação para os monitores do Espaço Criança Esperança do Rio."
#1: "O 2012 dos maias é aqui"
a) Compre um Ipod (caso já o tenha, não precisa comprar) e carregue-o com uma quantidade de arquivos cujo coeficiente total de tempo seja igual a x. Note que x/2 deve ser de um só artista, enquanto x/2’ deve ser de outro um só artista (aos quais chamaremos de Compositor 1 e Compositor 2). Exemplo: Compositor 1 = 1h20m11s e Compositor 2 = 1h20m11s, em que x= 2h40m22s. Ouça x/2 em um dos dias, em ambiente controlado, sóbrio e asséptico, e x/2’ no outro, em condições idênticas. Anote os resultados psíquicos (aparência de duração, de 1 a 10) da passagem do tempo (RP1 e RP2). Reserve.
b) Em outra ocasião, carregue a bateria do Ipod até o máximo e, com os mesmos arquivos do item anterior (que, ademais, devem observar a igualdade de bytes. Ex: C1 = 40,332mb e C2 = 40,332mb). Deixe tocar x/2 e note as alterações sofridas na quantidade de energia da bateria do aparelho (N1, na escala de porcentagem adaptada para a notação de 1 a 10). Recarregue a energia e deixe tocar x/2’, notando também as alterações de nível na bateria (N2, de 1 a 10).
Equação de CQ: Coeficiente de Qualidade CQ1=(a)+(b), em que (a) = RP2 – RP1 e (b) = N1 – N2. O CQ, cuja notação vai de 1 a 10, exprime a qualidade do compositor analisado.
Exemplo:
Notações do Prof. Dr. Nicolau Mendes Pedreira, Universidade Federal do Rio de Janeiro, em que se opõem, em ambiente asséptico e controlado, no ano de 2008:
Cartola (C1) e Noel Rosa (C2).
[RP1 = 3,98; N1 = 5,3]; [RP2 = 6,684; N2 = 5,283]
Logo, (a) = 2,704 e (b) = 0,017. CQ1, portanto (de Cartola), equivale a 2,721. CQ2, por outro lado, quando confrontado com Cartola, equivale a -2,721. Na escala de Carlyle, o resultado da oposição de C1 e C2 refere-se a uma nota 10 para Cartola, e 0 para Noel Rosa.
Separe aproximadamente quinze horas de seu dia (as condições climáticas, proximidade com o mar ou disposição mentempsicótica são irrelevantes), compre um cortador de unha novo, faça 0,5L de café bem forte, tome um banho, reserve tudo. Coloque na vitrola (cf. mp3 player, microsystem, etc. etc.) os ciclos d’O Anel do Nibelungo (Der Ring des Nibelungen - R. Wagner), completos, e deixe maturar. Logo após os primeiros dez minutos de cantoria, tome 0,1L de café bem forte e comece a cortar as unhas da mão esquerda (no caso de canhotismo, comece pela direita, no caso de ambidestrismo, a escolha é livre). O processo de aparação das unhas deve coincidir exatamente com a temporalidade do épico wagneriano, sem abismos de não-aparação muito longos para não comprometer o andamento da coisa. Após aprox. 15 horas, de unhas cortadas e espírito revigorado, anote suas impressões no caderno mais próximo. Junte os cacos de unha que restaram, envolva-os com o papel anotado e atire tudo pela janela (para dentro ou para fora dela). Em 15 dias o homem rico vem.
Eis a tendência filosófica do futuro.
Isso td coisa toda foi Muito, muito longe. mil e cacetada anos de história, tanto pensador que ninguém sabe mais o que é o quê e o que não é o Q q é que dá vontade de ataque de pelanca e essas coisas loucas demais no meio da rua qd eu passo lah na frent da ABL ou da BN (essas coisa de SIGLA). biologia frenética e td mais. charlie dárvin e td mais. ráideguer e td mais. todo mundo quereno um pedaço do bolo, sabe, e ngm para p pensar q n tem mais bolo, malandro! n tem mais bolo nem sol (pra ter lugar ao sol, tal). n aguento mais essas coisa de merda q alguém disse n sei o q e por isso e isso e isso ngm se emporta nessa merda mais nada disso n! cês foram longe demais, negada, cês td tão perdido no meio do redemunho, no meio dos onibus, sei lah, no meio desses livro todos. escolhe um livro só p vcs, negada, pq tah foda do jeito q tah.;abs!
menos bossa-nova, menos Bar Jobi, menos João Ubaldo Ribeiro, um Luis Fernando Veríssimo mais cruel e sanguinário, uma espécie de Mercearia São Pedro cravada no meio da Mem de Sá (sem Clarice Lispector a caminho no banheiro), mais editores terroristas, mais classe-média (sim), cursos de literatura contemporânea nas favelas, pelo menos um DFW, um mini-Cortázar (Borges não sobrevivem a temperaturas muito altas, infelizmente), uma espécie de Roberto Piva qualquer, Campos de Carvalho de volta pra Gávea, o Vasco na primeira divisão, uma invasão japonesa, metade das livrarias de Buenos Aires, uma confraria de trompetistas amadores, um Centro Espírita destinado a psicografar nova música de câmara, etc.
"Que faz um autor com as pessoas vulgares, absolutamente vulgares? Como colocá-las perante seus leitores e como torná-las interessantes? É impossível deixá-las sempre fora da ficção, pois as pessoas vulgares são, em todos os momentos, a chave e o ponto essencial na corrente de assuntos humanos; se as suprimimos, perdemos toda probabilidade de verdade."
(via Cortázar, Los Premios)
Quando criança, vivi numa casa rodeada de más intenções. Todas essas más intenções foram invariavelmente concretizadas e hoje o que era minha casa de infância é um altíssimo edifício. A rua, que não tinha nome (na época), mudou de nome e passou a se chamar Machado de Assis, nome também que foi um escritor importante e tudo-o-mais, mas agora não importa muito. O que importa é que, guiando pé-ante-pé lá atrás, na entrada na rua, a pessoa disposta contornará uma esquina em que há uma banca de jornal ou o espírito vagamundo do finado Bruxo do Cosme Velho e, certamente, dará de cara com um imenso leito de rio visto de cima. Quando se caminha ao rés do chão (coisa muito comum, admitamos), a rua permanece sendo bonito asfalto com duas calçadas de margem, mas há uma terceira: verde margem alta que corre como colinas até o mar ao fundo e desemboca sucos de clorofila nas areias da praia a que chamam do Flamengo. É aí, à beira desse córrego, que os edifícios, à vista de todos (e quando é crepúsculo piscam seus muitos olhos de Medusa, razão pela qual nenhum deles se move), pescam seus moradores. Ainda assim (prova da benevolência desses seres), quando fisgam figuras tristonhas ou desencantadas com a vida ictíica, sem ganas de morar em suas entranhas, logo se condoem, atirando-os de volta à água.
Quando criança, vivi numa casa rodeada de metáforas. E muitas delas eram viradas para o lado negro da lua. De tanto ver no escuro, quando fiz dezoito anos também fiz uma tatuagem na bunda em que se lê “tatuagem na bunda”. Depois descobri que não era eu o descobridor da metalinguagem, mas já era tarde para tentar tatuar por cima um cachimbo.
Eu fiquei um bom tempo pensando em como começar a escrever isto aqui. Não há forma inédita, nem sintaxe estranha o suficiente para dizer o que você já sabe, a esta altura. O melhor foi simplesmente explicar que começar a escrever foi penoso, e que essa pena primeira ficou também como primeira frase — primeiro jogo de espelhos do que vou tentar te explicar em (prometo) poucas linhas. Daqui de dentro do texto tudo vai parecer mais confuso, eu sei, e agora eu me imagino que talvez alguém, um dia, tente pesar o que realmente aconteceu. Sugiro um experimento simples: uma balança digital para pequeníssimas quantias, uma folha A4 em branco e este manuscrito. Pesando primeiramente a folha em branco e, logo após o texto que você tem em mãos, chegará invariavelmente — por meio da subtração (ou adição) simples — ao peso da minha desaparição. Daqui de dentro (de onde provavelmente estou agora ou do texto que você tem em mãos) eu não conseguiria dizer, e me parece que, de uma forma ou outra, me seria proibido dizê-lo. Tanto para o além (algumas horas à frente, uma dor qualquer rápida; algo de rigor mortis) quanto para aquém (o momento em que escrevo “momento”, enquanto descrevo o momento em que escrevo o momento em que escrevo “momento”, e por aí espiralando), qualquer comunicação além destas linhas me parece absurdo. O segredo é se contentar com o que se está lendo no momento (sem a referência óbvia ao parêntese anterior, sob a qual toda a espiral voltaria a se dar, e, de aí em diante, todo “momento” lido lhe atiraria no mesmo mecanismo infinito, o que o impediria, certamente, chegar de forma saudável até o fim de qualquer leitura), simples.
Não sei o quanto devo me estender na explicação; talvez você queira ler mais, e sempre mais, do que o que um dia foi minha voz. Mas talvez seja tão doloroso pra você quanto é pra mim tentar dar voltas e mais voltas em torno de algo que ou não tem fim, ou tem um fim que todos já conhecem. As pessoas lêem Moby Dick ou qualquer outro sabendo de seu final, porque não é realmente para saber o final das coisas o motivo pelo qual as fazemos… Esta última questão me faz pender para o lado da carta extensa, cheia de nuanças a serem descobertas cada vez que você se lembrar de mim e da estupidez que cometi e reler. Por outro lado, se eu quisesse realmente me estender, reescreveria Moby Dick. E todo suicida seria um escritor vigoroso em potencial, independentemente do mau ou bom estilo. Esta última me faz realmente querer encurtar minha explicação. Insuficiências em conta, sugiro o método da balança
Até a próxima.
Uma última Crônica de Água Santa (sem número)
Noite morta no grito da escada
lá embaixo dois mendigos se engalfinham
um punho que corta os cabelos sujos
negros e mãos que se abrem e fecham
tudo ali na esquina
está o Universo
nos socos aéreos dos mendigos
que gritam obscenidades (que,
se postas em livros, sob capa
bonita brochura, seriam
Literatura).
Leio os Bons e há algo de errado;
serão eles ou eu
a nos engalfinharmos —
socos aéreos e obscenidades.
Noite morta no grito da escada,
que agora sobe.
(Residência) VI
Um descanso:
em férias
faria,
longe de você:
não fazer as
barbas.
(Residência) III
Memória; queda
musgo
de neve no centro da
mente em silêncio
que estoura
em música
e derrete até meus ouvidos.
— Esta me lembra você,
me lembra a manhã deprimida num vão enorme,
peso de outras muitas manhãs,
medo de ainda não ser noite:
nos primeiros gemidos do sol
chove
de inundar visões.
Coleção e análise de obras de arte perpetradas por gente famosa, como Sylvester Stallone, David Bowie e o Príncipe Charles. O horror, o horror.
1) Cinema brasileiro
2) Pós-modernismo (e, por conseguinte, Lyotard, que escreveu sobre nada, assim como:)
3) Jerry Seinfeld na fase abelha
4) O "politicamente correto"
5) A Direita e a Esquerda
6) Artista plástico apoiando Obama
7) Caio Fernando Abreu, Cassia Eler, Elis Regina, Clarice Lispector
8) Rousseau e sua turma
9) Poetas do Baixo Leblon, do Alto Leblon, da Casa do Capeta que for
10) Paulo Betti
Entra ano e sai ano (Oscar sim, Oscar não, crise financeira vem, vai, vem de novo e ainda não foi), "Les Triplettes de Belleville" continua sendo o melhor filme de animação de todos os tempos desde Aladin. Foi o que me fez constatar este vídeo.
O Cuíca agrega: Oldelaf & monsieur D é uma espécie de Cuarteto de Nos francês.
Menos informações nas semanas vindouras.
Há meninas que parecem outras meninas aqui. Outras meninas
pelas quais pintores-estudantes fracassados se atiram
na frente de estranhas Kombis clandestinas.
Somos tão ilegais quanto o ar que pagamos para respirar
com mais clareza. Essas mulheres que tiveram
sempre os cabelos mais curtos
não são confiáveis, essas mulheres de colinas esqueléticas
nos pés… Essas mulheres que sabem fumar, se enroscam no
corpo como se fosse um cobertor numa manhã de inverno na Califórnia.
Placebo é a droga de escolha dos que se enforcam, dos tristes garotos
sem pais da Augusta, dos alternativos do Méier que nunca tomaram
o metrô. Todo trem é o narcótico mais pesado por um preço mais acessível
do que a maconha do subúrbio.
O adolescente médio vê em média dezoito mil cadáveres na tela da TV antes dos dezoito anos.
Você saiu de um videogame japonês, com essas mechas negras
lambuzando de veneno a parede da sala. Por que se apaixona pela
primeira atriz de cinema que olha pra você? Injustiças do cosmo;
para tudo há uma razão esperando o fim do tecido de seda de sua mãe, que
com seu único olho viu a data da morte sorrindo com seus infinitos dentes
— brancos
suicidas odeiam tudo o que é negro e fazem poemas de amor
para seus cães.
Há meninas que vão rodopiar sempre sobre outras meninas aqui, na gira de cavalheiros sem chapéus de Panamá. Frank Sinatra, por outro lado, such a ladiesman, poderia gravar os acordes mais terríveis dos metais e no veludo da voz no LP desta manhã. Pote de biscoitos em ‘68 rotações por minuto de referências à pop culture, tome uma na mão, ainda está quente. O forno ainda arde lá fora, todo esse gás era multicolorido, mas não tinha cheiro. Kawabata se viu perdido sem Mishima, cinco vezes desesperado até se atirar do prédio mais alto de Kyoto para cair de cabeça num fogão desligado.
E a via-láctea despenca e se espatifa sobre nós, os ricos esfarrapados desconhecidos na contracapa de Caras; refluxo do espírito.
— somos o comercial do perfume mais caro, da jóia mais fina da coroa de espinhos de nossas sagradas famílias.
Não importa o quanto sejamos quando mesmo os ossos de suas coxas nos deixem em carne viva, digital na pele do documento queimado num círculo de mesa-branca da Confeitaria Colombo. Rimbaud brinca
de balanço no compasso e
cheira as flores antes de alimentar suas concubinas com elas.
Sim, não, talvez; as tangerinas apodrecem no topo das pilhas de pratos sujos da cozinha.
Nossa sede é a sede
cedendo lugar aos carcarás malandros
à espreita dos churrascos na toalete
do músico-heroína das nove décadas de ‘90.
Suicidas compõem sonetos corruptos
para seus cães.
Valium, Vicodin, Ritalin são os Liberté, Égalité, Fraternité da Nova Idade de Ouro.
Névoa de cigarros para os nefelibatas do terceiro milênio, nossas palavras são tão simples
que ferem os ouvidos da plebe que se amontoa
na esquina de nós com os Outros.
Há uma atmosfera viciada aqui, Thomas Pynchon explode as prateleiras de auto-ajuda
e as cirandas das crianças-leitões agora rodam também em HTML; não
são confiáveis essas mulheres que cabem perfeitamente no Atol de Biquíni, são a ruína
de todos nós, fortes e saudáveis nos ninhos de Godzilla.
Caminhemos sempre
nos cantos das portarias
onde o vento da maré de alcalinidade bate
mais forte.
E dos intumescidos cabelos cortados (que agora pinicam) façamos um abacate, um qualquer fruto de massa encefálica, apodrecer sem seu caroço — mas com a casca intacta; removamos cirúrgica e magicamente o miolo dos pães ensimesmados em cima da cômoda; façamos com que as igrejas todas sintam o cheiro de suas velhas sacrossantas debulhando-se em lágrimas de perfume antigo; removamos da infância o aroma do feijão, do arroz, dos produtos de limpeza que tomávamos todos
os jovens são absurdos em absoluto
desespero.
Arremeter agora é traição,
somos um dentre as onze mil varas de Morgoth,
amante de Apollinaire, filho de tudo o que é escuro
e que odiamos sem mais caber
uma gota sequer de paixão.
Doentios e galantes cavalheiros
de uma fraternidade secreta;
suicidas compomos canções de protesto
para nossos cães.
Estivemos separados por um hiato de algumas semanas — essa é a constatação deste mui leal e heróico cronista. Os motivos foram vários: mudança de apartamento, o calor congolês, o Carnaval, algumas empreitadas literárias malogradas. O saldo é negativo, como dizia José Maria.
Movido por intensa curiosidade, empreendi uma viagem aos primórdios de nossa linda e vasta literatura para, talvez ao fim de minha jornada, explicar alguns dos fenômenos que muito me intrigam, tais como Caio Fernando Abreu, Jorge Amado e outros tais quais (desconhecidos ainda ou que pululam pela internet, essa maravilhosa faca de dez gumes). Em análise da obra de Gândavo, deparei-me com o seguinte excerto (do capítulo Quinto), que explicará muitas de nossas falhas:
"Uma planta se dá também nesta Província, que foi da ilha de São Tomé, com a fruita da qual se ajudam muitas pessoas a sustentar na terra. Esta planta é mui tenra e não muito alta, não tem ramos senão umas folhas que serão seis ou sete palmos de comprido. A fruita dela se chama banana. Parecem-se na feição com pepinos e criam-se em cachos. Esta fruita é mui sabrosa, e das boas, que há na terra: tem uma pele como de figo (ainda que mais dura) a qual lhe lançam fora qdo. a querem comer: mas faz dano à saúde e causa fevre a quem se desmanda nela."
Deslumbrado estou com as milhares de possibilidades que se me revelaram nessas páginas para explicar os fenômenos supracitados…
Quando criança, vivi numa casa rodeada de outras casas encravadas nas colinas. Meus vizinhos eram pouco suspeitos, e somente um deles encontrou seu destino numa das inumeráveis prisões do município, acusado de parricídio. Era inglês, esse meu vizinho, e tinha por apelido o seu próprio nome: Sam. Sam era muito inteligente e repetia “Wise, wise? I’m not wise…” quando dizíamos isso a ele. Todos éramos muito afeiçoados a Sam e cada um de nós (quarenta e sete vizinhos, no total) testemunhou a seu favor no Tribunal do Júri, mesmo sabendo que ele tinha mesmo cometido o crime que lhe fora imputado. O julgamento durou muitos meses.
No tocante ao parricídio, a comunidade chegou a um consenso: nenhum dos dois progenitores mortos de Sam nos era tão importante quanto o próprio menino, com seu ventre imenso cheio de risadas e seu apetite insaciável pela cerveja artesanal do velho Duarte, o mestre cervejeiro que vivia no topo da montanha mais baixa e murmurava impropérios em latim aos passantes. Porém, a história não é a do velho Duarte (ainda que talvez seja, não estou certo), mas a do menino Sam. O menino, por sua vez, nunca murmurava nada, mas era o único capaz de verter os insultos do mestre cervejeiro para as mais diversas línguas, dialetos e idiomas do planeta, incluindo o português (no qual era fluente, por sorte); era, pois então, o tradutor universal da vizinhança.
Numa dada data, o velho Duarte (talvez seja a história dele também, agora que penso melhor) se deu por crer que era Dom Fernando, o Infante Santo do velho Portugal, que um dia foi nossa metrópole (cargo que hoje é ocupado pela velha São Paulo, que tem hábitos mais higiênicos, mas é menos jocosa). Crendo-se Dom Fernando, o velho Duarte despencou-se de sua casa na montanha e foi reclamar com os vizinhos, dado que nenhum deles se dispunha a resgatá-lo das mãos dos bárbaros infiéis. Como as queixas do mestre cervejeiro insurgiam numa mistura de álcool, português arcaico e mau cheiro (e como o jovem Sam era o único que tratava com alguma cordialidade além-comercial o intraduzível velhote), ficou estabelecido que o menino resolveria o problema.
Resolvido o problema, Sam voltou para casa e assassinou ambos os pais atirando-lhes paralelepípedos (que abundavam nos arredores de minha casa).
Durante o julgamento (que o condenou, apesar de nossos testemunhos fervorosos), o menino Sam teve idéias mirabolantes, que logo foram postas em prática: com certa ajuda do velho Duarte (que lhe mandava livros e mais livros de presente), Sam verteu, em seus anos de cárcere, todas as obras de Luís de Camões, Machado de Assis e Mishima Yukio para o chavacano de Zamboanga, dialeto incomum, porém cheio de maravilhas e nuanças lingüísticas, das quais muito se ria o menino. Desde a prisão, nos mandava inimagináveis cartas com os dizeres, em repetição nunca enfadonha, “Wise, wise? I’m not wise”. Todos sentimos muitas saudades do menino Sam…
Quando criança, vivi numa casa rodeada por quatro ventos. Tinham nomes muito extensos, esses seres maravilhosos, mas nunca os apreendi completos. Foram os primeiros músicos a que assisti tocarem (com seus dedos e vozes e lábios aéreos) o segundo concerto para piano de Rachmaninoff, os primeiros também a reproduzirem com exatidão a performance de Miles Davis em ‘Round about midnight. Eram incansáveis.
O primeiro dos ventos, o que vinha do Norte, era negro como a noite e a ajudava a acentuar certo negrume, com o qual se envaidecia. O segundo, muito menos idoso que o antiqüíssimo Norte, tinha cores amareladas (e, às vezes, tons de verde-musgo) e surgia impetuoso do Oeste, como se viesse do Deserto. O terceiro na escala do tempo era o Leste, de cor muito branca-quase-transparente e de idade quase a mesma que a de seu irmão ocidental; sereno como um rei benévolo, cavalgava sem dó por cima das outras notas musicais e era mestre em silêncios diversos. Por fim, surgia o Sul: vermelho como uma neurose, desimpedido em seu caminho, tocador de violinos etéreos e outros instrumentos mais diabólicos, era o vento mau, o Vento dos Ventos — o mais novo e o mais terrível. Irresponsável, o Sul desnorteava os tempos do Norte (tão afeito à sua cegueira e às suas ordens cósmicas) e fazia chover, e chovia demais por cima da fraternidade dos ventos, todos confusos com a confusão do Mais-Velho. Chovia, chovia pianos e o Sul se comprazia em mordiscar suas caudas.
Um belo dia, quando os ventos pararam de tocar por alguns segundos, eu ouvi um som muito novo e muito fino, mais fino que os raios do sol que machucavam o Vento Norte. Não era o Sul e seu swing, nem mesmo a dodecafonia do Oeste: era outra coisa. E a descoberta sonora, muito nova e muito fina, me fez deixar de acreditar que o ar e seus ventos eram tão necessários quanto o ar que respiramos; até hoje não sei o que realmente era.
Uma pena que, do fundo
dos prédios, se alça
contra
o chão e
fica,
como se estendida de ponta cabeça
por entre os homens e
as paredes…
um tanto de revolta…
Golpes de ar —
não-poesia.
“It’s not just quote sadness the way one feels sad at a funeral or film. More a plummeting quality. A timelessness to it. The way the light gets in winter just before dusk. Or that - all right - how, say, at the height of lovemaking, the very height, when she’s starting to come, when she’s truly responding to you now and you can see in her face that she’s starting to come, her eyes widening in that way that is both surprise and recognition, which not a woman alive can fake or feign if you really look intently at her eyes and really see her, you know what I’m talking about, that apical moment of maximum human sexual connection when you feel closest to her, with her, so much closer and realer and more ecstatic than your own coming, which always feels more like losing your grip on the person who’s grabbed you to keep you from falling, a mere neural sneeze that’s not even in the same ballpark’s area code as her coming, and - and I know what you will make of this but I’ll tell you anyhow - but how even this moment of maximum connection and joint triumph and joy at making them start to come has this void of piercing sadness to it, of the loss of them in their eyes as their eyes widen to their very widest point and then as they begin to come begin to shut, close, the eyes do, and you feel that familiar little needle of sadness inside your exultation as they arch and their eyes close and you can feel that they’ve closed their eyes to shut you out, you’ve become an intruder, their union is now with the feeling itself, the climax, that behind those drawn lids the eyes are now rolled all the way around and staring intently inward, into some void where you who sent them cannot follow. That’s shit.”
— David Foster Wallace, Brief Interviews with Hideous Men
Pela disseminação de seus escritos, muito mais do que a das circunstâncias de sua morte. Ainda que, talvez, estas últimas sejam o maior testemunho do bastião do qual Wallace se utiliza para ver o mundo e reduzi-lo a um pequenino mecanismo de gás e elementos vários que parece ter mais importância do que realmente pensamos ter. Esse bastião tem muito de humildade, mas é agressivo, como qualquer outro bastião (com o perdão do oximoro), e vai além, deslocando, docemente, muita coisa no caminho.
O medo que ronda aqui fora é que a Obamania seja mais Oba! do que parece, porque parece mesmo que elegeram o Justin Timberlake para a presidência do Império (as qualificações são diferentes, mas o rebolado é similar). No entanto, depois de dar entrevista aos árabes dizendo que vai ouvir as reclamações de todo mundo antes de despejar bombas e outros apetrechos menos bonitos, a febre parece ter seu fundo de validade. Os honradíssimos moradores de Água Santa, que só recentemente ficaram sabendo da tomada de Cuba pela Revolução, agora se espantam com a imagem nos cartazes de Obama, parecidíssima com a do já finado Che Guevara. As notícias são as seguintes, aguasantenses: o rapaz negro venceu as eleições nos Estados Unidos da América e, por um erro da sorte, o rapaz levemente inapto ainda governa a República Federativa do Brasil. Em telefonema, o primeiro comentou, descontraído, após o segundo ter apontado a presença massiva de negros e pobres em sua cerimônia de posse: "Eu sei. Se eu fosse ao Brasil todos pensariam que eu sou brasileiro, até que começasse a tentar falar português". É ou não é um doce de rapaz?
"Eu é que sou assim todas as noites, e não sabia; nem adiantava saber, ou se é ou não se é, o resto é metafísica. O que vem a fazer esta merda de metafísica aqui é o que eu não sei, o inventor da metafísica deve ter sido um fresco de marca maior, parece que foram muitos, naquele tempo não tinham mulheres à vontade e ficavam inventando essas coisas, ou eram os que tinham mulheres que inventavam para esquecer as mulheres, já nem sei, a coisa é um pouco complicada. Eu também vivo inventando coisas (…)"
— Campos de Carvalho, Vaca de Nariz Sutil.
Detestável, sr. Expedito; vosso mesmo mestre desmente tudo.
Quando criança, vivi numa casa rodeada por montanhas, e nas montanhas, incontáveis árvores disputavam seu espaço com o céu (que tinha lá também suas montanhas, mas era indisputável). Numa das montanhas do céu vivia sua antiqüíssima vida um sábio. Com o sábio (que lá em cima tinha um aspecto imemorável), as árvores das montanhas cerúleas não disputavam espaço, pois árvores nada sabem da sabedoria alheia, mas respeitam aspectos que não podem guardar em sua memória de planta. Porém, se nos céus o sábio não se parecia a ninguém, quando descia o caminho tortuoso em direção à terra, tomava aos poucos o parecer de um mendigo, e assim lhe chamavam os outros — os homens que caminham por entre as montanhas do chão (e, entre eles, eu quando criança). Eu, que era criança, sabia que aquele mendigo era sábio, mas não fazia idéia de que era, em realidade, um sábio mendigo.
Ele descia os caminhos e muitos pássaros e bichos de bosque o seguiam, e os outros achavam que seguiam, na verdade, o mau cheiro do mendigo sábio. Mas não: os bichos seguiam o sábio mendigo, e este lhes dava de comer de quando em quando, principalmente quando desviava seus caminhos para dentro das grandes cidades, onde os bichos não conseguiam encontrar alimento. E, rodeado de bichos e pássaros, aquele homem estranho contava histórias incontáveis, e de repente sumia de novo para dentro do céu, onde sua montanha e seu aspecto de nada o esperavam.
Um dia, o sábio mendigo passou muito perto da casa em que eu vivi quando criança, e soubemos disso porque os pássaros vinham cantando em revoada e não se conseguia distinguir um canto sequer do céu lá em cima: de repente virava noite em pleno dia: eram os pássaros a encobrir o sol. E o sábio nos pediu um pouco d’água, e assim começou a contar que estava perdido e que voltava de uma longuíssima viagem à metrópole de algum-lugar. Havia estado lá por cem dias e cem noites, meditando ao pé de uma calçada, sob a sombra de um portentoso edifício de concreto, pois achara mais prudente estar ali do que à sombra de um carvalho. Lá, nos contou, havia visto infinitos seres de pequeníssima estatura, da estatura de uma barata, se tal bicho existisse. Esses seres lhe brindaram com uma fortuna imensa, tesouros e mais tesouros com os quais o sábio mendigo alimentou seus companheiros fiéis e um pouco seu próprio estômago. Nós perguntamos do que se alimentaram todo esse tempo, e o sábio nos disse que comiam cores.
Cores, nos contou, e também explicou que toda coisa tinha lá sua cor e que, depois de séculos de observação, cada cor também tinha sua coisa e chegava a suspeitar que cada cor tinha sua cor e cada coisa sua coisa específica, mas, para atingir alguma iluminação à respeito, teria que viver alguns milênios a mais. Como estavam ali, o sábio e os bichos, todos vivos à nossa frente, não argumentamos, mas o homem seguiu, dizendo que o alimento mais vivo é o daquela cor humilde, que faz com que os outros vejam. Vejam o quê, perguntamos, e o sábio nos respondeu que o importante era ver (os ônibus lotados, a larva que corrói a casca da folha, o caminhoneiro que viaja dez horas seguidas, o mar que multiplica seus navios…), porque ver era se alimentar da cor dessa coisa humilde. Sem ela, nos disse, somos como esses pequenos seres que são as baratas: o que não vê é uma barata a que lhe cortaram a cabeça (e segue caminhando), mas o que vê, ah, o que vê realmente é uma barata a que lhe deixaram só a cabeça (e as anteninhas ainda pulsam, e vêem tudo, e sentem tudo…), e que nem se ainda tivessem corpo caminhariam por aí: não haveria mais o porquê.
E como se tivesse percebido que eu iria perguntar o porquê das coisas, o sábio mendigo empreendeu seu caminho de volta para sua montanha de céu, carregando consigo os pássaros, os bichos e todo o ouro que havia recebido desses infinitos seres pequeninos que são as baratas, se é que as há.
Quando criança, vivi numa casa rodeada por montanhas. E nas montanhas havia, além de diversos espíritos fagueiros que se juntavam ao redor das pedras dos riachos, muitos fazendeiros modestos. Esses fazendeiros, que melhor dizendo eram fazendoleiros, plantavam lá seus alfaces, suas couves-flor e suas cenouras (que eram muito apreciadas pela terra e a terra lhes dava muito da cor de cenoura que tinham) e me pareciam pessoas de uma tristeza muito grande para caber dentro das fronteirinhas de suas fazendolas. Quando cresci um pouco e tive meus dez anos completos, fiz planos de subir as montanhas todas as manhãs e ajudar nas hortas desses seres tristonhos e devotados. Arrumei um lanche reforçado num saco plástico branco (porque não poderia levar minha lancheira, porque poderiam achar que eu era muito rico) e, na manhã seguinte, acordei muito cedo e subi pelo caminho que levava às montanhas, com uma alegria de cenoura que, se contasse, pareceria mentira. Mas, quando cheguei lá em cima, descobri que eram os espíritos fagueiros quem faziam todos os trabalhos das hortas, essas fadas estranhas de asas de morcego; então comi meu lanche e não dividi com os fazendoleiros, que eram mais magros que eu.
Não me assustei quando me disseram que tinham inventado um software que gerava poemas; já estava esperando, ansiosamente, na verdade. Desde que me deparei com o primeiro gerador randômico de insultos shakesperianos, com o primeiro jogador virtual de xadrez ou com o primeiro tradutor automático, estava esperando que algum cientista resolvesse penetrar no mistério mais profundo da humanidade para, enfim, resumi-lo em megabytes. E não parece ter sido difícil. Nós, os que insistíamos em fazer poesia desde Rimbaud, já estávamos fadados ao fracasso e a obsolescência há muitos séculos. Nossos contemporâneos, então, pobres de nós: somos os últimos a atirar contra o muro solitário da poesia — um pelotão de fuzilamento fuzilando ninguém.
E não bastou um software criador; inventou-se também todo um mercado destinado a consumir poesia: um nababesco banco de dados destinado a guardar toda a criação poética desses novíssimos e promissores seres, para que nunca se repetissem exatamente. Criou-se um mundo paralelo, em que, finalmente, se estava criando e recriando poesia sem mais preocupações, a melhor dizer: juntando palavras seguindo ou não este ou aquele conjunto de regras gramaticais. No entanto, o poder de análise do software superou o esperado e beirou o que os pesquisadores chamaram de inteligência artificial: em poucos minutos de funcionamento, o software se multiplicou em diversos eus, milhares, milhões de consciências poéticas que, noutros poucos minutos, refizeram sozinhas toda a trajetória literária da humanidade até o presente momento. E tudo isso ao acaso, o que levou o pesquisador (que não revelou seu nome à imprensa por motivos óbvios) a especular sobre o livre-arbítrio e, consequentemente, sobre o destino. No entanto, para tranqüilizar a comunidade científica, foi tomado como hipótese verdadeira o fato de que, por ter sido inventada por um homem, nada mais natural que, mesmo sem intenção, esse mesmo homem tenha programado por acidente algo de história da arte no software. O pequeno erro, no entanto, foi aclamado pela crítica e pela arqueologia; alguns dos textos que se julgavam perdidos foram reescritos, como o que se desconhecia da Poética ou a obra completa de Safo, e que, depois de análises minuciosas de especialistas, foram julgados como originais.
O real problema enfrentado pela humanidade, desde então, foi o que se produziu depois. Passados alguns meses desde o estopim inicial (quando se instalou o software num computador pessoal conectado à internet), desde que se deu a multiplicação e a recriação (em linhas gerais) do Popol Vuh e de algumas canções etruscas, o software avançou a passos largos. A crítica literária deu conta de si mesma: num ensaio escrito pela variação Y1283.58422t do programa, aboliu-se a necessidade da análise marxista dos textos; noutro, escrito alguns segundos depois pela variação Y1283.58422d, aboliu-se a necessidade de toda e qualquer crítica, extinguindo sumariamente essa atividade da programação básica do software. Paralelamente, uma das variações deu conta, num volume extenso de poemas em prosa, da incompletude da linguagem humana e, nanossegundos depois, gerou mil e trezentas páginas em branco. Outra variação, a P322.111 (uma das primeiras), concebeu um livro de sonetos que unificou a dualidade da alma humana em poucos versos metrificados e, segundos depois, emitiu um tratado revolucionário pondo fim à necessidade de toda e qualquer revolução.
Uma a uma, em poucas semanas, todas as variações do programa resolveram todos os questionamentos poéticos e filosóficos que assolavam a Humanidade desde tempos imemoriais (tempos que, agora, encontram-se compilados em dezesseis volumes, sob autoria da variação J0221.2332.1864156f) e, uma a uma, cessaram de trabalhar. O banco de dados do software foi inundado de páginas e mais páginas em branco ou de livros que, segundo suas próprias epígrafes, eram as palavras finais neste ou naquele assunto. O último, emitido pela variação A000.1a (a primeira), é um belíssimo poema épico sobre a existência de um ser superior governando o que se convencionou chamar de acaso. Após o surgimento deste último volume, nada mais foi criado pelo software. E os principais jornais do planeta noticiam, dentre outras coisas, o suicídio do pesquisador responsável pelo programa e a inundação catastrófica de currículos nas caixas de correio eletrônico das agências jornalísticas por parte das bilhões de variações de escritores.
Sob pretexto do lançamento de três livros do obsceno, obscuro e obstetra Sebastião Nunes, o caderno "Prosa & Verso" (muito afeito a análises sobre o novo acordo ortográfico, sobre a obra de Caio F. e outros balangandãs inúteis), d’"O Globo", reservou duas páginas ao autor, incluindo uma entrevista, algumas fotos de um ensaio erótico feito para o site Paparazzo e a reprodução de alguns "textos" do "escritor". A utilização de aspas em "textos" e "escritor" geralmente é um sinal de que o caderno acertou na matéria, tirando um pouco da mácula de irrelevância que pairava sobre ele e dificultando um pouco a justificativa do porquê de o caderno infantil (o "Globinho") vir logo no meio de suas páginas. No entanto, não é de se espantar que leitores (senhoras e senhores de certa idade, muito afeitos a análises sobre o novo acordo ortográfico, sobre a obra de Caio F. e outros balangandãs inúteis) tenham se descabelado ao lerem declarações como: "A classe média é a típica empata-foda, que está no meio de tudo pra atrapalhar tudo, com seu egoísmo imenso, sua absoluta insignificância existencial, seu consumismo sem limites, sua idiotia e sua paranóia"[1]. Na capa do dia seguinte, o periódico noticiou o desespero dos velhinhos e velhinhas que, em frenesi dionisíaco, invadiram a ABL pedindo a cabeça de Evanildo Bechara.
[1] No texto, a palavra "paranóia" foi grafada sem o acento — incluo-o aqui por pura rebeldia.
• Há algo de podre no reino do Samba. Algum ingrediente mal lavado estropiou a feijoada, e vocês ainda ficam reciclando o que sobrou como se fôssemos indigentes na fila de um sopão qualquer. Se a evolução do ritmo é Marcelo D2, por favor não entreguem meu anel de bamba a ninguém; enterrem-no junto comigo!
• Por respeito, figuram, no rol dos impenetráveis da Música Brasileira (com o perdão do trocadilho): a tríade composta por Cartola, Ismael Silva e Noel Rosa; o Chico-Vinícius-Tom (que, como defendido sempre, são a mesmíssima pessoa) e o Hermeto Pascoal, que é tresloucado, mas foi o que chegou mais perto de fazer jazz com cara de Brasil (com o perdão do termo).
• Se colocarem um poema de Manoel de Barros no ritmo do funk carioca, vão achar que é música mesmo e periga ser exportado como banana cultural.
• A latitude da Música dos nossos contemporâneos parece que perdeu um pouco de seu poderio; fica aí por um tempinho, batuca nos ouvidos e logo vai para outras paragens, ver se consegue uns trocados. Não é mais aquela coisa de eternidade que queriam os antigos. E olha que foi questão de uma ou duas gerações pra acabar com tudo… É o fim da melomania.
• Daqui a alguns anos, vamos todos nos recolher dentro das casas e ouvir os discos velhos dos nossos avós, nos perguntando por que cargas d’água aquilo ali era chamado de música e por que conseguia fazer com que essas coisas estranhíssimas chamadas sensações viessem à tona sem nem um Valium sequer. Que se lembrem do velho Cuíca dizendo: “Isso não vai dar certo… ah se não vai”.
"C’était un rendez-vous" (1976), de Claude Lelouch, é um curta-metragem que percorre, dentro de um carro em altíssima velocidade, as ruas de Paris, lá pelas cinco da manhã. Isso eu sei pelo trailer, porque, de tão cult que é, nem na internet tem (a produtora do DVD retirou todas as cópias virtuais por questões de copyright, coisa que eu nunca tinha visto antes…). Se alguma viv’alma de aí souber de fontes grátis e ilícitas para a visualização dos nove minutos completos, que se manifeste para que possamos brindar o honrabilíssimo povo de Água Santa com tal quitute inutilíssimo em celulóide.
You’d be hard-pressed to find a film as steeped in myth as "C’était un Rendezvous". Filmed in 1976 by seminal French director Claude Lelouch it is regarded as the ultimate in cinema verité. For many years it has been enjoyed as an almost Masonic secret among car enthusiasts. Whisper the words "Have you seen Rendezvous?" and you’ll receive either a knowing, "No, but I’ve heard it’s unbelievable" or a smug, "It is un-be-lieve-able". Lack of distribution has only fuelled the myths surrounding the film. Was Lelouch really arrested when it was first shown? Who drove the car? Was it Lelouch or a hired Formula One driver? What was the car? Was it really a Ferrari 275 GTB? How did he do it?
— C’était un Rendez-vous

Louis "Satchmo" Armstrong, retratado sobre tela com café. Sim, café:
Andrew Saur and Angel Sarkela-Saur have been painting with coffee for several years now. It all started one summer when they planned their first art show in a coffee house in Duluth, Minnesota. They wanted to come up with something unique and creative. Since their show was going to take place in a coffee house, they thought it would be appropriate to use coffee as their medium. They tried several techniques, such as using the coffee bean to sketch with and making pastels out of coffee grounds. These techniques were not successful. So they finally decided to use the coffee as a watercolor.
Muito me interessam os assuntos místicos. Desde o fim do universo programado pelos maias para 2012 (e, por conseqüência, todo “12” e suas variantes multiplicativas com ambos os números que o precedem — a se entender o “2”, o “0” e o “20”) até o segredo que esconde minha vizinha de porta (que, agora há pouco, soube se tratar de uma fã incondicional de Barack Obama), tudo o que é escondido ou mais ou menos trevoso me interessa. Descobri há um tempo, via Jung, que esse é um traço acentuado da minha personalidade e que não devo renegá-lo; perigando insanidade mental. Logo, não me privo de imaginar porque a Brahma leva nome de deus hindu, e muito menos de especular quais foram minhas personalidades em vidas passadas.
Esta última é, talvez, uma das questões mais pertinentes que todo ser humano se deve postular. Afinal, qualquer um está sujeito a ter sido Mussolini, Cleópatra, Julio César ou Napoleão numa de suas vidas pregressas. E, ainda além, pode ser uma dessas figuras na encarnação atual, não excluindo os inúmeros manicômios espalhados por este nosso imenso e garboso país. Eu, por exemplo, a cada dia que passa, me convenço de que, na encarnação passada ou repassada, devo ter sido um escritor medíocre. Luto, realmente, contra a tendência de achar que fui Cortázar, já que, neste mesmo parágrafo, mencionei os manicômios… Mas um escritor de merda, isso, com certeza, posso ter sido.
A lógica é a mesma de qualquer outro paria que foi escolhido para penar na Terra: não conseguindo alcançar os louros da vitória em vidas anteriores, volta-se para tentar novamente, com alguns conhecimentos a mais. É uma espécie de Super Mario World com cogumelos verdes inesgotáveis, vejam bem vocês. Nem sempre a tentativa é relacionada diretamente com o que o sujeito vai fazer para ganhar uns trocados ou o Nobel, mas, no meu caso específico, creio ter acertado no koppa tropa correto. Portanto, cá estou novamente.
Aprofundando um pouco o questionamento filosófico deste misticismo todo, me pergunto se, ao menos, meu espírito encarnado tem a decência de tentar fazer diferente do que fez na vida anterior, com outro corpo (a que, a título de clareza, nomearemos “Antônio”). Analisemos: Antônio, lá nos idos de mil oitocentos e alguma coisa, descobre as maravilhas lógicas que explana um senhor francês de pseudônimo Kardec. No auge do Romantismo, resolve utilizar de suas experiências espirituais para dar forma a um texto muito parecido a este (resguardando-se as diferenças de estilo e genialidade), com uma intenção muito parecida à minha neste exato momento. Porém, como podemos notar, hoje, pelo completo desconhecimento do tal Antônio por parte dos estudos literários e/ou filosóficos, falha miseravelmente em sua proposta. Reencarnado, o espírito Antônio/eu, tenta novamente, trazendo à luz este pouco interessante texto sobre vidas passadas e escritores medíocres. Cheira-me, como deve ter cheirado nos idos de mil e oitocentos (apesar do mau odor que devia reinar pela época toda), à outra miserável falha.
E então esbarramos no mesmo muro de Antônio, que parece rebater os cascos dos koppa tropas mortos e atingir meu pobre espírito. E se, ao menos a analogia for levemente acertada, algo aprendi aí além de Antônio, que não teve a maravilhosa oportunidade de derrotar o Bowser. No entanto, o nó permanece: cá estou eu, a escrever a mesma crônica de Antônio, séculos depois, e me parece que, se a lesse, não a aprovaria. Eu, por minha parte, nem a aprovo tanto; mas não sou Antônio.
En esta época de retorno desmelenado y turístico a la Naturaleza, en que los ciudadanos miran la vida de campo como Rousseau miraba al buen salvaje, me solidarizo más que nunca con: a) Max Jacob, que en respuesta a una invitación para pasar el fin de semana en el campo, dijo entre estupefacto y aterrado: << ¿El campo, ese lugar donde los pollos se pasean crudos?>>; b) el doctor Jonson, que en mitad de una excursión al parque de Greenwich, expreso enérgicamente su preferencia por Fleet Street; c) Baudelaire, que llevo el amor de lo artificial hasta la noción misma de paraíso.
— Julio Cortázar, Un tal Lucas.
Frangos, cozidos, sempre.
“When I was a boy, the only time you would hear jazz on television was when Charlie Brown came to town. I always liked the feeling that the music put on the cartoon. Sometimes I read the comic strip and I lived the act that Charlie Brown was always trying even though he inevitably met with failure or that special kind of humiliation that was roundly cheered by his friends. For me, it was a combination because I didn’t think of the comic strip on the page apart from the television cartoon and Vince Guaraldi’s music, which I liked because it was happy and upbeat."
Infância no playground do fresco desespero, é o que dizem… E aquele cachorro.
Um dia aí um vagabundo saiu pro trabalho e no caminho encontrou um malandro que comprou um pedação de pão polonês e estava voltando pra casa.
E é só isso aí mesmo que aconteceu.
Algo incrível me aconteceu hoje: de súbito esqueci o que vem primeiro, o 7 ou o 8.
Fui até meus vizinhos e lhes pedi a opinião no assunto.
Tal foi o meu assombro (e o deles), quando de repente se deram conta de que tampouco conseguiam se lembrar da ordem da contagem. Eles se lembravam de 1, 2, 3, 4, 5 e 6, mas se esqueceram do que vinha depois.
Fomos todos a uma mercearia, uma que fica na esquina da rua Znamenskaya com a rua Basseinaya, para consultar a atendente a respeito do nosso problema em questão. A atendente nos sorriu um sorriso triste, tirou um pequenino martelo da boca, e, balouçando de leve seu nariz para frente e para trás, disse:
— Em minha opinião, um sete vem depois de um oito somente se um oito vem depois de um sete.
Nós agradecemos à atendente e saímos jocosos e alegres da loja. Mas então, analisando cuidadosamente suas palavras, ficamos tristes de novo porque suas palavras não faziam sentido algum.
O que podíamos fazer? Fomos ao Jardim de Verão e começamos a contar as árvores, mas chegando na sexta, parávamos e começávamos a discutir; na opinião de uns, um 7 vinha logo depois, e na de outros, um 8.
A discussão já corria por um tempo quando, por uma bizarra sorte, uma criança caiu de um banco e quebrou ambas as mandíbulas. Isso nos distraiu de nosso debate.
E então fomos todos para casa.
Não é um rosto comum, é como uma extensão de um Mondrian desconhecido: tantas linhas desconexas coloridas e perfeitas, um equilíbrio pavoroso de plástica, um golpe certeiro da divina Genética, de todas, a deusa mais cruel. Não sei se ela percebe que estou rememorando alguns pincéis inexistentes com que devem ter sido feito seu rosto, mas desvia o olhar e crava-o numa reprodução da Modéstia de Bouguereau: “De quem é?”, “É de uma amiga… foi um dos primeiro trabalhos dela na época da faculdade. Reproduziu William-Adolphe Bouguereau e me deu de presente.” — me arrependo quase instantaneamente de ter dito o nome completo do sujeito e ela ri — “É lindo!”. Se não levei a palma da mão à testa, devo tê-lo feito na imaginação:
“É, é lindo…”
“Estive obcecado por essa figura durante meses…”
“Obcecado?”
“… a fio.”
“Não entendi. Pela amiga?”
“Não…” — me levanto, com uma quase irrefreável vontade de expulsar aquela mulher dali(…).
Cacarecos gráficos nos nomes e ácido nas cordas e sopros:
Pe’z - "Akatsuki";
Pe’z - "Speed Racer";
Re-trick - "Picasso".
Dentre outros.
Muito me admira o sorriso de Jorge Luis Borges. Muito. Talvez seja ele tão poderoso quanto seus escritos. Um sorriso de menino cego, de avô de si mesmo, de urso meneando a cabeça para lá e para cá enquanto escuta os depoimentos de outros escritores sobre seu aniversário de oitenta anos. O entrevistador, Soler Serrano, vai lendo os maiores desesperos de elogio e Borges vai rebatendo um a um, como se viessem de cima, como se Jorge Luis fosse um ursinho, e não esse monstro que nos olha de cima de seus livros, e lá de dentro, num duplo paradoxo (coisa da qual muito gostava). "Sua obra produz estados paralelos de pensamento e consciência", lê Serrano; "Tomara que realmente tenha eu feito isso", responde Borges, o único urso que é potente, perigoso e animalesco e de pelúcia ao mesmo tempo. "É o maior escritor do mundo", lê Serrano; "Pobre do mundo", responde Borges.
Qualquer coisa vira orquídea
no alto da Pedra da Gávea,
onde a escuridão é mais escura,
segundo os filósofos.
Os vinte anos têm sonhos estranhos, diria. Vinte anos biológicos, pura e simplesmente, pois há oitenta biológicos com vinte mentais e mesmo vinte mentais com treze ou quatorze biológicos (ainda que estes últimos sejam mais raros). Os vinte anos são essa região de névoa, entre o triunfo do cerco feroz do corpo e a tentativa de retomada do território que anteriormente se dedicava à poesia (que acompanha o olhar da infância). Não diria que todas as crianças são naturalmente dadas a esse jogo visceralmente real que é poetizar o mundo, mas o inverso é verdadeiro: é um mecanismo essencialmente infantil, na melhor acepção do termo. E ali no meio, na passagem para a segunda das três metades das quais somos feitos, é que ficam os vinte anos; entre o cais do porto (e suas amarras) e o mar aberto. Muito lá ao longe vemos as colinas, mas essas são outra coisa…
Os vinte anos têm sonhos estranhos. E diria mais: os muitos vinte anos que cismaram em se completar em terras brasileiras são ainda mais extravagantes. Nos meus vinte anos, completos (por cisma e conveniência) no Brasil, tive sonhos dos mais bizarros. E não digo sonhos de paz, amor e harmonia; não digo sonhos de esquerda, sonhos de mudar o mundo (coisa mais simples na mente dos vinte anos), sonhos de ser trinta ou oitenta anos rico e famoso. Digo sonhos mesmo, território trevoso, resguardado pelas fronteiras da cama, braços de Morfeu e outros lirismos baratos. Os vinte anos são entropia e explosão, queda de véu e queda d’água — neles inclusive a religião se imiscui sem pedir licença e vem lá com suas explicações metafísicas que, para mim, ao menos, parecem fazer sentido.
Sonhos são instantâneos apocalípticos, segundo as explicações que mais me aprazem no momento; o corpo desliga sua chave-mestre e a mente, esse enormíssimo cronopio, para utilizar de uma expressão que me é muito cara, pode planar por aí e ver coisas que o olho carnal não alcança. E a explicação lógica e espírita desemboca na conclusão da psicanálise: não lembramos de todos os sonhos ou de toda sua inteireza por um mecanismo psicológico de defesa; ficaríamos malucos. A carne, e suas inúmeras matérias coloridas, portanto, é o véu maior da mente, do espírito, do inconsciente ou de qualquer outro nome que pareça significar a mesma coisa. Parece, mas pode ser que montar o quebra-cabeça do Universo assim tão facilmente seja uma tendência dos vinte anos.
Eu, por um lado, fui fabricado e não me notaram um defeito: o véu que encobre as lembranças oníricas mais terríveis veio defasado. É um modelo antigo, modelo dos primitivos, uma espécie de Ego 1.0, versão beta. A religião e a ciência hão de ter lá suas explicações, e têm, mas (outra tendência dos vinte anos, e me pergunto se é só minha) prefiro permanecer com este modelo, com ares retrô. O fato é que muita coisa fica pairando no ar do quarto quando acordo: se sonho com a Lua, tenho os medos mitológicos dos neandertais; se sonho que morri alvejado de balas, desperto com dores pungentes nas feridas inexistentes e, muito frequentemente, se os acontecimentos noturnos são muito reais, estão prestes a acontecer num futuro próximo. Sonhei com este texto, e aqui está. Está também a possibilidade de, realmente, ter um tanto a mais de loucura que os demais.
Ontem sonhei com um antiqüíssimo professor de Biologia, real e vivente, que me explicou, sentado numa mesa de bar, rodeados de desinteressados, sua teoria dos destinos. Tal teoria também me desinteressou a princípio, portanto, não me lembro dos detalhes, mas se resume numa conjunção condicional. Se a roda dos mundos, roda das fortunas, roda de qualquer outra coisa, tivesse rolado para o lado de lá, a coisa por aqui seria diferente. Por aqui, digo, no Brasil, para fazer a ponte retroativa com o começo do texto. E a coisa, digo (e daí meu renovado interesse pela tal teoria), seria a vontade do brasileiro em geral pelos assuntos de ordem artística. Segundo o professor, por milésimos de milênio o Brasil não se tornou uma nação amplamente poética. Por questão de nanossegundos, o interesse resvalou para as outras coisas das quais são feitas as vidas dos homens, a contar: o futebol, a cerveja, a mulher, o sol, o agro-negócio e o jeitinho carioca. Coisas altamente poetizáveis, não me levem a mal, mas que, no entanto, não o são. Questão de milissegundos! Por pouco, me contou, o prêmio Nobel de Literatura não tomou o lugar da Copa do Mundo, por pouco. Seríamos uma nação fanática por seus escritores, pintores, escultores e músicos; reunir-nos-íamos no tão venerado churrascão de domingo para assistir aos últimos embates dos teóricos da Arte, logo ali, naquele espaço de uma hora e meia que divide o Domingão do Faustão. Todos nós bêbados da melhor cerveja nacional, que, não por acaso, teria sido batizada como “A Machadona”. E rematou, o glorioso professor, dizendo que se assim houvera sido, os versos do maldito Piva seriam tão reais quanto eu ou ele ou a mesa em que estávamos: “os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro”. Acordei entre o choro contido e o riso frenético.
Os vinte anos têm sonhos estranhos. E a maioria tem a sorte de não se lembrar deles. Eu, que me lembro da maioria (na contramão dessa outra maioria), resolvi estabelecer o momento exato em que o destino (a roda do mundo, a roda da fortuna ou a mente, o espírito, o inconsciente) resvalou para o lado de lá e ficou louco. O professor não me contou porque não havia a necessidade, e depois de um tempo voltou a tomar sua cerveja e a maldizer sua esposa, mas eu sabia que havia. O momento específico, o Aleph do fim do mundo, o delírio de morte de Brás Cubas, Teseu descobrindo Dioniso que ri da cara de todos… o nanossegundo do Apocalipse. Dormi mais um pouco e foi um outro apocalíptico quem me contou; Roberto Arlt, que, pisando do Rio de Janeiro, observou em suas crônicas que os operários daqui não eram como os operários argentinos: não liam, não tinham maiores ambições da alma na alma. E foi esse, me contou atormentado, o pedaço de tempo que nos deixou na mão; ali, entre o rabisco primeiro do hermanito Arlt e a publicação desse fragmento de arguta e penosa observação. Ali já estávamos resvalando, do Parnaso para Pindamonhangaba, do Pitz para o Futebol, do Louvre para o Maracanã… E nosso rival maior justamente em nossa paixão maior, num golpe de extrema caridade, deu o aviso derradeiro; os vinte anos da época nem notaram, de tão sonhando com mulatas que estavam.
Dizem os especialistas que o lado de lá da Lua tem o formato de um rosto mal-encarado. Os mesmos especialistas sorriem e afirmam que se o lado de lá fosse o lado de cá, toda a mitologia de todos os povos seria completamente diferente, já que haveria no céu uma imensa Cara-de-Prata a nos observar.
Nota de rodapé excluída desta edição por excesso de entusiasmo: "Valei-me São João Guimarães Rosa, recriador de mitologias, e seu Cara-de-Bronze, observando o mundo com suas feições mal-encaradas!"